sábado, 7 de julho de 2007

Marcha dos estudantes em Brasília


Cerca de 8 mil estudantes com bandeiras, faixas e rostos pintados participaram de uma passeata ontem em Brasília, na Esplanada dos Ministérios. A manifestação terminou com ato político em frente ao Banco Central. Os estudantes participam do 50º Congresso da UNE - União Nacional dos Estudantes, que termina amanhã. Reivindicam mudanças na política econômica do Governo com uma agenda voltada para os interesses nacionais, com desenvolvimento, distribuição de renda e geração de empregos. Reivindicam também a abertura dos arquivos do período da ditadura militar.

Para o presidente da UNE, Gustavo Petta, as transformações que vão colocar o país nos rumos do desenvolvimento passam necessariamente por mudanças na política econômica e pela saída do ministro Henrique Meirelles. Para Gustavo Petta, “o Meirelles representa a área mais ortodoxa da economia e descomprometida com os investimentos sociais. Sua permanência significa a manutenção das altas taxas de juros, o superávit primário e a conservação das benesses aos banqueiros e patrões do capital".
Ao longo do trajeto, coreografias e a irreverência característica do movimento estudantil, marcaram a passeata.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Manchete deturpa resultado de pesquisa falando em Brasil "dividido"

Recolho, na internet, um exemplo de como não escrever um texto jornalístico.
Serve também para demonstrar como pesquisas de opinião podem ser distorcidas e usadas seletivamente, de acordo com o gosto do freguês.

Segundo o Estadão:

"Ibope: Vavá e crise aérea impedem melhor avaliação de Lula

39% consideram notícias mais desfavoráveis ao governo, ante 20% em abril

BRASÍLIA - O impacto de notícias negativas, como as denúncias contra o irmão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a crise aérea, segurou em patamares estáveis a avaliação positiva do governo Lula, mostrou nesta sexta-feira, 6, pesquisa Ibope encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

De acordo com o levantamento, 39% dos entrevistados consideraram as notícias mais desfavoráveis ao governo, ante 20% em abril. Caiu de 23% para 19% a percepção de que o noticiário é mais favorável em relação ao governo. Os que consideraram as notícias neutras passaram de 40% para 29%. De acordo com a pesquisa, a principal notícia sobre o governo foi a denúncia envolvendo o irmão do presidente Lula, Genival Inácio da Silva, o Vavá, com 31% das indicações.

"O título é falso.
Não foi o que a pesquisa apurou.

A pesquisa apurou que as pessoas acham que o noticiário foi mais desfavorável ao governo nas últimas semanas.

Isso não significa que elas concordem com o noticiário.

Está claro que não mudaram de opinião por causa do noticiário.

O fato é que, apesar do noticiário desfavorável, a aprovação do governo Lula manteve-se estável.

A avaliação do governo como "ótimo/bom" aumentou de 49% para 50%.

Deram um jeito de noticiar isso com uma negação, ou seja, "poderia ser melhor".

No total, 83% consideram o governo regular, bom ou ótimo.

E a aprovação pessoal de Lula manteve-se estável, em 66%.

Eu imagino a frustração que sentem os barões da mídia brasileira.


Publicado em 6 de junho de 2007

E olhem só como o G1 noticiou a mesma pesquisa:

"DivididoPesquisa: metade dos brasileiros aprova governo Lula

Pesquisa divulgada nesta sexta-feira (6) pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) detectou que metade dos entrevistados considera o governo Lula "ótimo" ou "bom".

Apesar disso, a taxa segue inferior à do levantamento de dezembro, antes de ter se iniciado o segundo mandato do presidente. Naquela ocasião, 57% consideravam o governo "ótimo" ou "bom". Agora, esse percentual, é de 50%.

A taxa de junho representa leve oscilação em relação à do levantamento de abril, quando a mesma pesquisa apontou avaliação positiva de 49%.

"Em dezembro, o governo atingiu o seu patamar mais elevado de menções 'bom' e 'ótimo'. Os resultados estavam inflados pela campanha eleitoral e pelo otimismo provocado pela reeleição", informou a CNI, que encomendou a pesquisa.


"Meu comentário:

Viram só como funciona o jogo de palavras?

Se o leitor comparar o resultado da pesquisa atual com a de dezembro do ano passado, de fato o índice de "ótimo e bom" do governo caiu de 57 para 50%.

Mas em relação à pesquisa mais recente, de abril, o índice de "ótimo e bom" aumentou 1%.

E o título?

Qual é o número que pode levar à conclusão de que o Brasil está dividido?

Se 50% por cento disseram que consideram o governo "ótimo e bom", 33% por cento dizeram que o consideram "regular".

Portanto, não há divisão, porque 83% dizem que o governo é "ótimo, bom ou regular".

Só haveria divisão se 50% tivessem dito que consideram o governo ruim ou péssimo.

É ou não é manipulação de informação?


Publicado em 6 de julho de 2007 (viomundo.globo.com/site )

Desligar a mídia golpista


“TV Globo perdeu neste ano quase 30% da audiência que tinha em 2006.
No mês de junho deste ano, a emissora marcou média de 18,5 pontos (cada ponto equivale a 54 mil domicílios, ou 176 mil pessoas, na Grande São Paulo), das 7h às 0h. No mesmo período e horário do ano passado a média foi de 25,7 pontos no Ibope. De acordo com o colunista da Folha, a Copa do Mundo transmitida exclusivamente pela Globo ajudou a alavancar os números no ano passado. Ainda assim, a emissora apresenta queda de 2,6 pontos se comparar os números do mês de junho de 2005. A emissora que já foi hegemônica, hoje tem 42% de participação do "bolo" da audiência. Isso quer dizer que a maioria das pessoas não assiste apenas a Globo.
(Fonte: desabafopais)

O futuro dos biocombustíveis

Na Conferência sobre Biocombustíveis, organizada pela Comissão Européia, em Bruxelas, na Bélgica, o presidente Lula garantiu aos países europeus que a produção de etanol e biocombustíveis será feita a partir de um programa de certificação, com a garantia de respeito ao meio ambiente, direitos trabalhistas e sociais. Ou seja, que não vamos nem produzir cana de açúcar na Amazônia, nem degradar terras e o meio ambiente no país ou desrespeitar direitos sociais e trabalhistas. Lula priorizou a necessidade de se organizar um mercado internacional de biocombustíveis, mas a realidade é que a Europa tem uma tarifa altíssima para o biocombustível, de até 55%. Para o petróleo, no entanto, ela é de 5%. Portanto, depois da certificação e da organização do mercado de etanol e biocombustíveis, teremos uma longa batalha para acessar os mercados europeus.
O presidente Lula lembrou, também, que ao contrário do petróleo, praticamente todos os países podem plantar oleaginosas e produzir biocombustível. Eu acrescento que o Brasil pode, deve e será a fonte de tecnologia, capitais e equipamentos para um programa mundial de produção de etanol e biocombustível, dentro de rígidas normas ambientais e trabalhistas, e com zoneamento agrícola, evitando-se assim o encarecimento ou a escassez de alimentos no mundo, pela perda de terras hoje produtoras de alimentos para as oleaginosas ou para a cana de açúcar.
Para nós não se trata apenas de ser um exportador de açúcar, etanol e biocombustível, mas sim um exportador de capitais, tecnologia,serviços e equipamentos. Isso é que conta. Esse é o nosso futuro. (fonte: Zé Dirceu )

quinta-feira, 5 de julho de 2007

50º Congresso da UNE

Jovens de todas as regiões chegam à capital federal com histórias diferentes na bagagem. Juntos eles vão discutir e decidir os rumos da maior entidade estudantil brasileira pelos próximos anos.

A programação consta de debates, seminários, grupos de discussão e atos públicos. Personalidades políticas, artistas e intelectuais vão participar das principais atividades do encontro, que será realizado na Universidade de Brasília, de 4 a 8 de julho.
As caravanas de estudantes, vindos de todos os estados brasileiros, começaram a chegar na madruga da terça-feira. São esperados cerca de 10 mil estudantes. (Veja mais informações no www.une.org.br)

terça-feira, 26 de junho de 2007

Banda larga em todas as escolas públicas

O ex-coordenador do NAE (Núcleo de Assuntos Estratégicos) e membro da comissão interministerial de inclusão digital, Oswaldo Oliva Neto, disse em entrevista ao Conversa Afiada nesta terça-feira, dia 26, que em cinco anos todas as escolas públicas devem ter internet banda larga.

“Hoje, mais de três mil municípios não têm acesso à internet e menos de 300 municípios possuem banda larga superior a dois megas”, disse Oliva Neto.

Para Oliva Neto, é preciso aumentar o acesso à banda larga no Brasil. “Há três, quatro anos atrás, se nós estivéssemos falando de 128 k, nós estaríamos satisfeitos. Hoje, dois megas já é insuficiente”, disse Oliva Neto.

domingo, 24 de junho de 2007

A imprensa anti-Lula

A revista Carta Capital que chega às bancas neste final de semana publica reportagem sobre uma pesquisa do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro) que mostra o comportamento da Folha, do Estadão, do Globo e do JB nas eleições presidenciais de 2006.
O blog do Paulo Henrique Amorim (conversa-afiada.ig.com.br) publica um gráfico (abaixo) e entrevista o cientista político do Iuperj e coordenador da pesquisa, Marcus Figueiredo onde ele diz que, em 2006, a maior parte da cobertura da mídia foi contra Lula porque ele “acabou dando certo como Presidente no campo econômico e social”. Segundo o professor Figueiredo, a cobertura da mídia em relação ao presidente Lula foi mais negativa em 2006 do que em 2002.

A pesquisa do professor Figueiredo mostra que o Globo e o Estadão são, numa mídia contra o Presidente Lula, os dois órgãos de imprensa mais anti-Lula. A pesquisa mostra que os editoriais e os colunistas são ainda mais anti-Lula do que o noticiário. O resultado desse sistemático anti-lulismo, segundo o professor Figueiredo, resultará na perda de credibilidade da grande mídia.

Veja o quadro abaixo (publicado na Carta Capital):




sábado, 23 de junho de 2007

Aos que vierem depois de nós




Aos que vierem depois de nós

Bertolt Brecht
(Tradução de Manuel Bandeira)


Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.


Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.


Bertolt Brecht nasceu em Augsburg, Alemanha, em 1898. Em 1917 inicia o curso de medicina em Munique, mas logo é convocado pelo exército, indo trabalhar como enfermeiro em um hospital militar. Aquele que iria se tornar uma das mais importantes figuras do teatro do século XX, começa a escrever seus primeiros poemas e cedo se rebela contra os "falsos padrões" da arte e da vida burguesa, corroídas pela Primeira Guerra. Tal atitude se reflete já na sua primeira peça, o drama expressionista "Baal", de 1918. Colabora com os diretores Max Reinhardt e Erwin Piscator. Recebe, no fim dos anos 20, instruções marxistas do filósofo Karl Korsch. Em 1928, faz com Kurt Weill a "Ópera dos Três Vinténs". Com a ascensão de Hitler, deixa o país em 1933, e exila-se em países como a Dinamarca e Estados Unidos da América, onde sobrevive à custa de trabalhos para Hollywood. Faz da crítica ao nazismo e à guerra tema de obras como "Mãe coragem e seus filhos" (1939). Vítima da patrulha macartista, parte em 1947 para a Suíça — onde redige o "Pequeno Organon", suma de sua teoria teatral. Volta à Alemanha em 1948, onde funda, no ano seguinte, a companhia Berliner Ensemble. Morre em Berlim, em 1956.


O poema acima foi extraído do caderno "Mais!", jornal Folha de São Paulo - São Paulo (SP), edição de 07/07/2002, tendo sido traduzido pelo grande poeta brasileiro Manuel Bandeira. (http://www.releituras.com/)

sexta-feira, 22 de junho de 2007

OMC: A CABEÇA DO COLONIZADO

. Os países ricos não querem que a melhor agricultura do mundo entre em seus mercados para beneficiar seus consumidores.
. A soja, o etanol, o suco de laranja, o frango, os suínos, a carne de boi etc, etc, etc do Brasil não podem entrar nos mercados europeu e americano.
. Se pudessem, haveria mais emprego e mais renda no campo brasileiro.
. Se pudessem, seria uma vitória de um princípio básico da economia liberal, uma vitória do livre comércio.
. Numa reunião em Podsdam, na Alemanha, o Brasil se levantou da mesa e foi embora porque os países ricos agem contra o interesse nacional brasileiro e o aumento do emprego e da renda do povo brasileiro.
. E a mídia conservadora (e golpista) prefere reproduzir o Presidente Bush e responsabilizar o Brasil pelo fracasso da reunião.
. Manchete do Estadão: “Países ricos culpam Brasil e índia por fracasso da OMC”.
. Manchete da Folha: “Bush e Europa culpam Brasil por fracasso em negociação comercial”.
. Ou seja, o Estadão e a Folha olham para o Brasil da perspectiva dos países ricos.
. É o que se chama de “cabeça de colonizado”. ( Paulo Henrique Amorim - conversa-afiada.ig.com.br )

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Chávez e a mídia oligárquica

Ao não renovar a concessão da RCTV, Chávez ganhou tempo. Mas o problema maior continua, permanente, que é a vocação golpista da mídia latino-americana e o grande risco que isso representa para a democracia. Essa é nossa agenda.

Bernardo Kucinski

Será mesmo que Chávez cometeu um erro de cálculo ao não renovar a concessão da RTCV, como diz o jornalista Teodoro Petkoff, na sua entrevista a Gilberto Maringoni, nesta Carta Maior? Pode ser. Mas sugiro que se inverta a questão. Que se discuta em primeiro lugar a vocação golpista da mídia latino-americana. E por que isso? Porque não é normal grandes jornais ou emissoras de tevê promoverem golpes para derrubar governos. Já as recaídas autoritárias de governantes fazem parte da normalidade política, mesmo na democracia. Kennedy, por exemplo, impediu o New York Times de revelar os preparativos de invasão de Cuba. Um Chávez mandão é o normal na esfera política. Uma mídia golpista é o patológico na esfera da comunicação jornalística. Essa é a aberração que nos cabe discutir. Essa é a nossa agenda. A mídia golpista prefere, é claro, a agenda “Chávez, o autoritário”.

A grande mídia já foi colaboracionista, como se viu na França durante a ocupação nazista, é quase sempre chauvinista em momentos de guerra, fechou os olhos a violações de direitos humanos por necessidades do imperialismo, como fez o New York Times com as atrocidades dos militares em El Salvador, e como faz a CNN agora no Iraque. Foi leniente com as ditaduras latino-americanas na época da Guerra Fria, mesmo as mais atrozes.A grande mídia levou Nixon à renúncia, no escândalo Watergate. Mas quem estava tramando um golpe ali era Nixon, e não a mídia. Nesse episódio, a mídia americana demonstrou uma notável vocação antigolpista, isso sim. Frustrou uma tentativa de golpe.

A grande mídia Ocidental não articula a derrubada de seus próprios governos, democraticamente eleitos. A grande imprensa Ocidental pode ser em geral conservadora e sem dúvida se constitui no grande mecanismo de domínio pela persuasão. Mas desempenha esse papel de modo contraditório, com altos e baixos, também informa bastante, é critica, e freqüentemente se rebela, passando a exercer uma função contra-hegemônica, como na cobertura da guerra do Vietnã.

Isso de golpe pela mídia só mesmo na América Latina. O conceito nem se aplica à mídia européia ou americana. Mas aconteceu no Chile, em 1973, no Brasil, em 1954, e na Venezuela de Chávez, além de tentativas mal-sucedidas, como o golpe da Globo contra Brizola na eleição para o governo do Rio de Janeiro, e os episódios “paragolpistas” da edição de debate Collor-Lula pela Globo na nossa primeira eleição direta para presidente depois da ditadura.

E por que a grande imprensa latino-americana é golpista? Porque é uma mídia de grandes famílias, originalmente os grandes proprietários de terras. Eles e seus sucessores dominam o aparelho de Estado, definem as políticas públicas, ora repartindo o poder com os bancos, ora com uma incipiente burguesia industrial, mas são sempre eles. Não por acaso, a maior bancada do Congresso Nacional é a bancada ruralista.

Essa elite nutre uma visão de mundo composta por três elementos principais: subserviência ao poder maior, que é o poder dos norte-americanos na região, como forma até mesmo de auto-proteção; 2) resistência a todo e qualquer projeto nacional; 3) desprezo pelo povo. Essa é a burguesia que nos coube na divisão do mundo promovida pelos Europeus durante a expansão mercantil e colonização do Novo Mundo. É a burguesia de uma economia dependente. Atavicamente antinacional e elitista.

Sua imprensa tem função muito mais ideológica do que informativa. Quando surge um governo com propostas de desenvolvimento autônomo e distribuição de renda, faz de tudo para derrubá-lo. Instala-se uma guerra. Primeiro tenta evitar que seja eleito. Daí o forte engajamento nas campanhas eleitorais contra os candidatos nacionalistas ou portadores de propostas transformadoras. Depois parte para o pau em conluio com militares golpistas. Foi assim com Getúlio, Allende. Até Juscelino, que deu um chega-pra-lá no FMI e tinha um projeto de país, foi bombardeado pela grande imprensa. O que ela quer são governos que privatizam, desnacionalizam, entregam, são entreguistas. Não por caso, combate ferozmente a política externa de Lula. Preferem a Alca. Chama isso de realismo político, mas é apenas subserviência. Necessidade de ser dependente. Tem pavor de projetos de autonomia nacional e mais ainda de propostas de unidade latino-americana. Nem o Mercosul engoliram.

Nunca aceitaram o Estado que chamam pejorativamente de “populista”. Isso ficou muito claro na Revolução de 30. Mesmo no bojo dessa revolução que deveria marcar o fim da hegemonia agrário-exportadora, Getúlio aplicou a censura prévia, rígida e abrangente, sobre todos os meios de comunicação e produção artística e cultural, a ainda teve a precaução de cooptar a maior cadeia de rádio e de jornais da época, a dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Não foi o autoritarismo de Getúlio, assim como não é o de Chávez, que geram o antagonismo da mídia oligárquica. É o caráter nacional-desenvolvimentista de seus projetos políticos. Tanto é assim que, quando Getúlio voltou ao poder pelo voto, sofreu intenso bombardeio e, de novo, entendeu que o combate à mídia oligárquica era essencial á sua sobrevivência. Apenas mudou de tática. Estimulou Samuel Wainer a fundar a cadeia Última Hora. O fato é que a grande imprensa tem sido arma recorrente dos golpistas. Usa o pretexto principal da luta contra a corrupção, seduzindo com isso a classe média recalcada, mas seu verdadeiro objetivo tem sido sempre o de derrubar o estado nacional-desenvolvimentista.

Quando toda a região abandona o Consenso de Washington em busca de um novo modelo que alie desenvolvimento com redistribuição de renda, agora com o reforço da unidade continental, a vocação golpista da mídia latino-americana torna-se um dos problemas centrais da democracia.

Chávez deve ter feito esse diagnóstico. E partiu para a guerra. Com as armas que tinha, no contexto atual, dentro das regras do jogo. Dividiu a oligarquia da imprensa, cooptando Cisneros, dono do maior conglomerado de mídia e, não renovando a concessão da RCTV, como que sinalizou aos demais o que lhes pode acontecer se saíram da linha.

Resolveu o seu problema, ou talvez só tenha ganhado tempo. Nós continuamos com o problema maior, permanente, da vocação golpista da mídia latino-americana e o grande risco que isso representa para a democracia. Essa é nossa agenda.

Bernardo Kucinski, jornalista e professor da Universidade de São Paulo, é colaborador da Carta Maior e autor, entre outros, de “A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo brasileiro” (1996) e “As Cartas Ácidas da campanha de Lula de 1998” (2000). Carta Maior